Mais um dia normal de trabalho. Chego para o turno, recebo a tarefa e vou trabalhar. Aqui uma ferramenta é desconfortável, ali um equipamento falha, acolá um perigo continua anos sem ser resolvido. Já falamos, escrevemos e pedimos solução para isso várias vezes. E adiantou? Ficou tudo na mesma. Então temos que nos adaptar. Afinal, o trabalho não se faz sozinho.
E aí o diretor da fábrica ou seu vice-diretor vem até mim e pergunta: «E então, quais são os problemas? O que está impedindo você de trabalhar bem e com segurança?»
Parece que chegou a hora! É só desabafar tudo o que está acumulado. Mas na minha cabeça passam outros pensamentos: «Por que esse interesse de repente? É alguma auditoria? Vou contar agora e depois a culpa vai sobrar para mim? Ou vai sobrar para o encarregado? E para que falar, se nada vai mudar mesmo?» Por isso, é mais fácil responder: «Está tudo bem, seguimos trabalhando». Não é que eu não tenha problemas. É que já me acostumei com o fato de que falar sobre eles quase sempre é inútil e, às vezes, sai caro para mim mesmo.
Afinal, não venho para o trabalho para discutir falhas. Tenho minha tarefa do turno, a meta e o equipamento pelo qual sou responsável. Preciso fazer o meu serviço e voltar para casa são e salvo. E o fato de que algumas condições estão longe do ideal eu já sei muito bem sem precisar do diretor. Trabalho todos os dias com esse equipamento. Sei onde é preciso fazer esforço extra, onde a ferramenta não é adequada, onde a operação é desconfortável de executar e onde é preciso ter cuidado redobrado. Com algumas coisas já me acostumei tanto que nem considero mais um problema. Simplesmente aprendi a trabalhar assim.
E quando me perguntam o que precisa mudar, nem sei direito por onde começar. Contar tudo? Mas metade dos problemas nós já discutimos nas reuniões diárias. Da outra metade, tanto o encarregado quanto o chefe de setor já sabem. Para que repetir? E o principal: ainda preciso entender se realmente querem ouvir a minha resposta.
Se o gestor veio com uma comitiva inteira, com o meu encarregado ao lado e outros chefes ao redor, dificilmente vou me abrir. Afinal, amanhã volto para o turno e continuo trabalhando com essas mesmas pessoas. É bem diferente quando o diretor ou o vice se aproxima sem a minha chefia direta e pergunta com calma como está o meu trabalho. Ele não apressa, não interrompe, não tenta explicar na hora por que estou errado. Apenas pergunta e tenta entender a situação.
Na Nornickel, esses encontros são chamados de rondas de liderança em segurança. É uma das ferramentas do projeto «Liderança em Segurança». Para mim, como trabalhador, o que importa não é o nome, mas sim que o gestor não veio me fiscalizar, e sim entender as condições em que trabalho. Mas, mesmo assim, dificilmente vou contar tudo de uma vez. É muito fora do comum! Primeiro vou citar um problema pequeno e ver a reação. Será que vão procurar culpados? Vão dizer que eu mesmo deveria ter consertado tudo? Será que o meu relato vai virar mais uma tarefa para mim mesmo?
E se o gestor se interessou, anotou o problema e prometeu verificar, isso é bom, claro. Mas, por enquanto, nada mudou para mim. Já ouvi promessas parecidas antes. Para mim, o que importa não é o quão atentamente me ouviram, mas o que vai acontecer depois da conversa. Digamos que eu contei que uma ferramenta é ruim ou que o equipamento precisa de manutenção há tempos. O problema foi registrado na planilha, definiram um responsável e estabeleceram prazos. Ótimo. Agora vamos ver o que acontece a seguir. Se a questão for resolvida — excelente. Se não for, que pelo menos expliquem o motivo e quando esperar um resultado. Não preciso que consertem tudo amanhã. Entendo que às vezes não é simples. O principal é que não esqueçam e que eu não precise lembrar dez vezes. E quando vejo que realmente consertaram alguma coisa, a atitude muda. Significa que não falei à toa. Quem sabe vale a pena falar de outro problema também?
Claro que, se nada mudou durante anos, não é com uma única conversa que vou acreditar que agora tudo será diferente. Vou observar como resolvem as questões, o que dizem os colegas e se ninguém foi prejudicado por ser sincero. Afinal, ainda vou trabalhar com essas pessoas. E se vejo que os problemas estão mesmo sendo resolvidos e ninguém é punido por falar, eu mesmo começo a falar com mais liberdade. Já não preciso esperar o diretor vir perguntar. Posso dizer por conta própria o que está errado e, às vezes, até sugerir como resolver. Afinal, trabalho aqui todos os dias e conheço certas coisas melhor do que quem só vê a operação durante as rondas.
No fundo, não preciso de atenção especial da chefia. Preciso de equipamentos adequados, ferramentas em bom estado, regras claras e a possibilidade de fazer meu trabalho com tranquilidade e sem riscos desnecessários. Se para isso for preciso contar ao diretor o que não vai bem por aqui — por que não? O importante é que dê resultado. Afinal, para mim não importa tanto quantas rondas o gestor fez ou quantos itens anotou no registro. O que me importa é se ficou mais seguro trabalhar depois disso. Se ficou, na próxima vez em que perguntarem «Quais são os problemas?», talvez eu já não dê a resposta automática: «Está tudo bem».