O ano de 1989 estava chegando ao fim. Eu tinha 8 anos. Como costuma acontecer em nossa região, o outono já estava bastante nevado e gelado — um verdadeiro inverno. Naquela época, eu estudava no turno da manhã e, depois da escola, minhas tarefas diárias incluíam limpar o apartamento e preparar o jantar, que eu deveria terminar antes de meus pais chegarem do trabalho. Enfim, naquele dia todas as tarefas já estavam prontas e eu até tive tempo de brincar na rua. Por isso, eu e meu irmão mais velho estávamos assistindo televisão.
Já estava escuro lá fora quando meu pai chegou e disse logo na entrada:
— Vistam-se. O seu tio foi prensado no trabalho. Ele está no hospital agora, precisamos chegar a tempo de nos despedir.
Nós nos vestimos e saímos. Naquela época ainda não tínhamos carro, e o táxi só apareceria na vila uns 20 anos depois. Fomos a pé. Dez minutos de caminhada rápida e estávamos subindo ao terceiro andar do hospital. Entramos no quarto atrás do meu pai. À direita, com a cabeça voltada para a entrada, meu tio estava deitado em uma cama de ferro, por isso não viu quando entramos. Ao nos ver, ele sorriu e começou a falar:
— Está tudo bem comigo. Com certeza vou melhorar logo…
Conversamos por uns cinco minutos, talvez. O médico que entrou no quarto nos pediu para sair. A porta se fechou atrás de nós. Depois de algum tempo, ela se abriu e levaram meu tio em uma maca de lona, coberto por um lençol branco com manchas marrons. Lembro-me de seguir a maca até o primeiro andar e depois para a rua. Em seguida, na escuridão da noite, em direção ao necrotério: uma cabana de madeira assustadora, que parecia uma sauna rústica por fora (e, como se viu depois, por dentro também). Fiquei do lado de fora e observei enquanto colocavam a maca sobre uma mesa de madeira, parecida com um banco de sauna, encostada na parede. Apagaram a luz lá dentro e todos saíram.
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Muitos anos se passaram. Eu cresci e, como venho de uma família de ferroviários, consegui um emprego na ferrovia. Cerca de seis anos depois, após passar por várias profissões e organizações, fui transferido para aquela onde meu pai e meu falecido tio trabalhavam. E, alguns anos mais tarde, por um acaso do destino, fui nomeado especialista em HSE. Para ser sincero, eu não sabia nada sobre essa profissão — foi uma aventura total.
No primeiro dia, assim que fiquei sozinho na sala, abri o cofre que ficava no canto. Estava muito curioso para saber o que havia dentro. Vasculhei até o almoço e caiu em minhas mãos um livro com um título que não dizia nada: "Registro de acidentes de trabalho". Folheando-o, vi um sobrenome familiar em uma das páginas. Li as breves circunstâncias do acidente e guardei o livro de volta.
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Entrei na profissão de forma lenta e difícil. Não tive mentor, aprendi tudo sozinho. Lia, estudava, digitava — as coisas foram clareando aos poucos. Um dia, cheguei ao arquivo e encontrei a pasta com os documentos da investigação do caso do meu tio.
Li como um vagão gôndola chegou à estação com postes de concreto para a rede aérea. Como a equipe recebeu a tarefa para um descarregamento sem pressa. Como o mestre de obras apressou a todos, não querendo deixar o trabalho para o dia seguinte (embora ninguém estivesse cobrando agilidade). Como, durante todo o dia no frio, a bateria do rádio dos amarradores acabou e não havia iluminação adicional — e a escuridão chegou rápido. No fim, durante mais uma subida do poste, dentro do vagão, meu tio foi prensado por ele. Esmagou a bacia, as costelas e os órgãos internos.
Lá também estava escrito que o chefe do setor era meu pai. Após o caso, ele pediu demissão e não quis mais ocupar cargos de liderança.
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Não sei por que, mas a memória de infância, como aquela porta do quarto, se fechou. Não me lembro nem um pouco do funeral. Na memória, restou apenas a assustadora cabana enegrecida do necrotério, dentro da qual meu tio desapareceu para sempre. Por muitos anos, eu olhava para ela com medo ao passar por perto. Até que o necrotério foi demolido e, agora, em seu lugar, há um terreno baldio coberto de bardanas.